Senti-me surrupiado quando me deparei com a capa do caderno de Esportes da Folha de S. Paulo do dia 7 de agosto de 2011. Quando vi a nossa camisa amarela, o estandarte do futebol refinado, ser minimizada como propriedade da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pensei no quanto o responsável pela ideia da camisa amarelinha revirou no caixão. Acho que nem ele pensou ser dono da indumentária de futebol mais famosa do globo.
Mineiro que sou, ébrio pelo orgulho de ter nascido e criado no interior, peço licença para contar um causo, nobre torcedor. Não vou me estender em relembrar que em 1950, o recém-nascido Maracanã foi o palco de um dos atos mais trágicos da história do futebol brasileiro, quiçá, mundial.
Ver a favorita escrete nacional se render ao futebol uruguaio em plena terra brasilis é uma tragédia que nem os gregos no auge da inspiração poderiam imaginar. Pois bem, depois do Maracanazzo (não existe uma tragédia que transcende épocas, eras e temporadas sem um bom nome), passou-se a considerar que o uniforme, além de não representar o Brasil, estava trazendo azar.
Supersticioso que só, o brasileiro sugeriu a mudança, inclusive, no uniforme. Qual seria o substituto das camisas e calções brancos de nossa roupagem? Diante de tal questionamento, Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o jornal O Correio da Manhã sugeriram que torcedores mandassem sugestões das cores para o uniforme nacional.
O vencedor foi Aldyer Schlee gaúcho (mas torcedor do Uruguai) que exaltou o amarelo já que a exigência do concurso era o uso das cores da bandeira em nossa nova farda: Amarelo na camisa com detalhes verdes, calções azuis e meias brancas. Como prêmio, dinheiro, dias e viagens juntamente com a seleção canarinho. Detalhes a mais e importantes são aquelas estrelinhas que resumem a apoteose que veio depois que a amarelinha passou a desfilar pelos gramados.
Eis que leio na Folha que a CBF (CBD, Confederação Brasileira de Desportos na época em que a camisa nasceu) se tornou dona da amarelinha. Processo na Coca-cola e em quem mais se atrever a fazer alusão à camisa da CBF em propagandas que remetem à Copa de 2014 ou na arte do nosso futebol.
Até mesmo a empresa japonesa responsável pelo “Pró Evolution Soccer”, a Konami, colocou a seleção brasileira com uniformes verde e branco no novo jogo, temerosa à fúria incontrolável da toda poderosa dona do futebol no Brasil. Isso por que a justiça carioca condenou a Coca-cola a indenizar a CBF por usar em uma propaganda ex-jogadores da seleção com uma camisa amarela.
Cada dia que passa a Confederação do Dr. Ricardo é protagonista de causos que deterioram a paixão do brasileiro pelo futebol. A camisa amarela representa um povo que tem no sangue a arte de praticar o esporte. Do povo que se afogava nas ondas do rádio que, em 1958, propagou o primeiro passo da vitoriosa caminhada do futebol nacional.
É do povo haitiano que sofre até mesmo com a natureza e que em um dia viu a paz se instalar. A paz levada pelos jogadores brasileiros que usaram o poder do manto canarinho para ser o pelotão de frente no bombardeio de alegria, sorrisos e tranquilidade, mesmo que por um dia. A camisa é minha, é sua, é de quem vibra, torce, mesmo que cante o hino com mão no peito, numa falsa sensação de nacionalismo. Pelo menos, essa mão no peito esconde a vergonha de ter em uma camisa tão vitoriosa com um brasão que insiste em se tornar inglório. Que brilhem apenas nossas estrelas no peito. Afinal, somos respeitados por conta delas.
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